Lugar de bruxo é na fogueira?

Monteiro Lobato na mira dos inquisidores


Angelina M. F. Castro


É com perplexidade que estamos assistindo à polêmica sobre o racismo no Sítio do Picapau Amarelo. Questão já antiga – razão do nosso espanto −, que parece ter-se iniciado no ano de 1914 com a publicação, no jornal O Estado de São Paulo, do artigo “Velha praga”, de autoria de Monteiro Lobato. Nele, o autor delineia a figura do Jeca-Tatu, dando-lhe contornos definitivos em seu novo ensaio, escrito no mesmo ano: "Urupês".

Se por um lado esse debate contemporâneo desmascara um aspecto do racismo, apreendido por aqueles que hoje perseguem o que seria politicamente correto, por outro nos remete a várias polêmicas sobre a obra de Lobato, surgidas a partir da ditadura Vargas. Tais questões parecem ter se instalado em nosso subconsciente e, voltando à tona frequentemente, acabam por envolver a obra lobatiana em uma aura negativa que contribui para o ofuscamento de sua verdadeira natureza. Essa postura preconceituosa impede o avanço da leitura de Lobato por parte, principalmente, dos professores, os quais muitas vezes têm-se deixado conduzir por crenças arraigadas.

A obra infantil de Monteiro Lobato vem sendo alvo de censuras ao longo de muitas décadas, tendo essa posição se exacerbado a partir da implantação do Estado Novo. Segundo o biógrafo do escritor, Edgard Cavalheiro, nesse momento seus livros chegaram a ser retirados das bibliotecas escolares por motivos os mais diversos. Dentre esses motivos ressaltamos a crítica à apresentação, em Hans Staden, de cenas de antropofagia; em História do mundo para crianças − livro que foi proibido de circular em Portugal e suas colônias −, o questionamento sobre o descobrimento do Brasil e a referência às 1600 orelhas cortadas aos marinheiros árabes por Vasco da Gama; em Peter Pan, a observação de que a história despertava o sentimento de inferioridade, ao estabelecer uma comparação entre crianças brasileiras e inglesas; em O poço do Visconde, a censura ao profeta Sabugosa que afirmou existir petróleo no Brasil; em Caçadas de Pedrinho, a crítica à política e aos processos burocráticos brasileiros. Tais julgamentos levaram à destruição e queima dos livros de Lobato nos pátios das escolas, como em um colégio do Rio de Janeiro no qual a diretora amontoou exemplares de diversos títulos da série, trazidos pelas próprias alunas, e em seguida os queimou.

Passados quase setenta anos dessa perseguição e em estabelecido regime democrático, a história se repete − pasmem! Em pleno século XXI, o Conselho Estadual de Educação quer retirar a obra Caçadas de Pedrinho, publicada em 1933, das bibliotecas públicas escolares. A justificativa de tal ação deriva de parecer da conselheira e professora da Faculdade de Educação da UFMG, Nilma Lino Gomes, que afirma ser a obra portadora de conteúdo racista.

Apesar das conotações negativas que envolvem a polêmica, o momento é fértil para o debate, já que nos encontramos em momento de maior maturidade pela experiência democrática que se encontra em processo no país. Nesse sentido, a situação pode propiciar uma discussão calorosa e lúcida sobre a obra e seu autor. É a hora de chamar a atenção dos cidadãos e convidá-los a fazer uma leitura de algumas das histórias (ou quem sabe de muitas...) que compõem um universo literário que ainda não foi devidamente explorado pedagogicamente. É o momento para que os professores, em especial os do Ensino Fundamental, aproximem-se da obra de Lobato e reflitam sobre sua dimensão ético-estética.

No atual cenário político, social e cultural em que nos encontramos, não há o menor sentido em impor-se a censura a uma obra literária sem mesmo observar suas inúmeras possibilidades de leitura. Não é possível falar daquilo que não se conhece bem; ao contrário, deve-se ler e pesquisar essa realidade para melhor conhecê-la e, então, sobre ela opinar. O “disse-me-disse”, segundo o próprio Lobato, é a pior forma de denúncia que existe, uma vez que corrompe a verdade através da distorção dos fatos.

É hora, pois, de conhecermos profundamente a obra e seu criador, recorrendo diretamente às fontes, e não nos deixando levar pelos intermináveis boatos que acabam por envolvê-la em uma névoa negativa que impede, já de partida, que se enxerguem suas possibilidades. Essa postura censuradora impede o usufruto da obra literária e acaba por negar à criança brasileira uma educação que pode ser libertária e revolucionária, crítica e autônoma.

A belíssima criação literária de Lobato mereceu de duas grandes escritoras brasileiras - ambas vencedoras do prêmio Hans Christian Andersen - pronunciamentos elogiosos. Lygia Bojunga Nunes referiu-se à obra como a primeira a conferir à criança um lugar central, respeitando seu mundo e fornecendo padrões de interpretação que visavam a integrá-la num contexto cultural. Ana Maria Machado apontou as qualidades de nossa literatura infantil, afirmando que seus caminhos foram abertos por Monteiro Lobato, escritor brasileiro que, ao criar uma obra diferente de tudo o que se fazia na maior parte do mundo, acreditou na inteligência da criança, tratando-a sem condescendência e incentivando sua autonomia nas histórias que criou.

Como se vê, não há unanimidade em relação à obra de Lobato. E o debate em curso, se for observado e apropriado pelo prisma positivo, pode funcionar como mote para novas reflexões. Acreditamos que a solução do “caso Nilma” não estaria na destituição do valor literário de Caçadas de Pedrinho, nem em sua expulsão de um lugar que lhe pertence, mas sim no aproveitamento do debate para que se inicie, no Brasil, um processo de aprendizagem de leituras em profundidade. Tais leituras nos permitiriam transitar pelas várias dimensões do texto literário, e seu resultado seria a ampliação da percepção e a consequente transformação mental, instituindo-se assim, por meio da literatura, uma reforma do pensamento − à moda de Monteiro Lobato e Edgar Morin.

Que a “nova fogueira”, trazida pela polêmica atual, queime não os livros, mas os preconceitos, e que abra caminhos para que uma reforma cognitiva seja operada em nossas mentes por meio de uma leitura renovada, extirpando a ingenuidade e a cegueira mental e propiciando que prevaleçam o espírito observador e crítico de que tanto carece a nossa escola.

Angelina M. F. Castro

Professora e pesquisadora, autora de
-
Educação, ética e estética na obra infantil de Monteiro Lobato (Tradição Planalto, 2010)
- Convite aos educadores: um passeio pelas páginas do Picapau Amarelo (Tela e Texto, 2008).

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